Muitos se enganam ao utilizar a expressão “virar Venezuela”, condicionando-a apenas à crise financeira. É preciso lembrar que o colapso da moeda foi a última pá de terra no caixão de um país que havia colapsado institucionalmente muitos anos antes.
Primeiro tentaram um golpe, depois foram eleitos e, então, começaram a aparelhar as instituições. Corromperam as estatais, roubaram até não poder mais. Colocaram aliados na Suprema Corte, perseguiram a oposição, prenderam inocentes e levaram outros ao exílio. As denúncias de irregularidades eleitorais se tornaram cada vez mais frequentes, assim como os questionamentos sobre a transparência dos pleitos.
Só para lembrar, estou descrevendo a Venezuela até 2015 (mas qualquer semelhança não é mera coincidência).
O resto da história não é novidade. A repressão do regime venezuelano aumentou, a crise se agravou exponencialmente, a ponto de o país enfrentar uma hiperinflação que, segundo estimativas divulgadas na época, ultrapassou um milhão por cento. O dinheiro perdeu tanto valor que se tornou símbolo da própria miséria venezuelana, enquanto produtos básicos, como papel higiênico, viraram artigos de luxo.
Dia 25/10 foi a nossa vez. Foi a decretação simbólica daquilo que, na minha avaliação, já vinha acontecendo no Brasil, ao menos desde 2019: um processo de venezuelização das instituições. De lá para cá, o que vejo é um sistema cada vez mais poderoso, acumulando influência e ampliando seus mecanismos de controle.
Enquanto isso, neste exato momento, somos uma oposição extremamente bagunçada, vaidosa, burra e desunida. Enquanto aqueles que consideramos nossos adversários se preparam para avançar com toda a força, em busca de aniquilar politicamente o sobrenome Bolsonaro e o “bolsonarismo”, parlamentares e jornalistas de direita resolveram entrar numa espiral de confusão entre si. Toda a energia é gasta com videozinhos tentando “desmascarar” ou “aniquilar” fulano de tal.
Não estou preocupado em encontrar os culpados. Tudo o que vejo neste momento são homens barbados, desesperados em busca de likes, atenção e de mostrar que são mais patriotas que sicrano e mais honestos que beltrano.
O momento mais difícil está sendo desperdiçado com intrigas a céu aberto nas redes sociais, alimentando conflitos e oferecendo argumentos que poderão ser utilizados em disputas jurídicas e políticas contra os recém-eleitos.
Todos esses parlamentares surfaram no sobrenome Bolsonaro. Independentemente de quem seja o mais limpo da história, deveriam estar reforçando um discurso de união e apoio a Flávio Bolsonaro, que, neste momento, enfrenta sua própria situação de afastamento do país.
Enquanto Janones e Lula organizam sua militância na internet — e falo com a propriedade de quem acompanha grupos esquerdistas por dentro —, alguns bocós da direita usam seus seguidores para tentar destruir a reputação de quem está do mesmo lado da trincheira.
Não somos obrigados a gostar dos nossos aliados, nem daqueles que possam surgir momentaneamente do nosso lado da trincheira. Mas convenhamos que essas intrigas são muito menores do que as bombas e os tiros que, politicamente, vêm em nossa direção por conta de um adversário em comum.
Ou todo mundo se organiza, ou corremos o risco de assistir a uma sequência de cassações, perseguições e derrotas políticas que poderá comprometer ainda mais a atuação da oposição.
Espero que, daqui a algum tempo, eu volte a este texto com a tranquilidade de quem percebeu um cenário muito ruim que se avistava, mas que não se concretizou graças a uma necessária correção de rota.